Fé e Reflexões

Depois de 41 dias internada, eu nunca mais fui a mesma

Capa acolhedora do artigo “Depois de 41 dias internada, eu nunca mais fui a mesma”, com flores, desenhos infantis, caderno de gratidão e elementos que representam fé, recuperação e recomeço.

Um relato verdadeiro sobre medo, dor, fé e renovação.

Existem experiências que dividem a vida da gente em duas partes: antes e depois. A minha internação foi assim.

No dia 05 de março de 2024, por volta das duas da manhã, tudo mudou muito rápido. Cheguei ao hospital de ambulância e precisei passar por uma cirurgia de emergência por causa de uma diverticulite. Naquele momento, eu ainda não imaginava o quanto aquele seria um dos momentos mais desafiadores da minha vida.

Foram 41 dias internada. Dias que pareceram meses. Dias de medo, dor, angústia, saudade e exaustão. Mas também dias em que conheci pessoas incríveis, vivi experiências profundas e percebi o quanto o amor, a fé e o cuidado humano podem sustentar alguém.


A parte que ninguém vê quando falamos sobre internação

Quando ouvimos que alguém ficou internado, geralmente imaginamos apenas o problema físico. Mas existe um lado emocional dentro de um hospital que quase ninguém consegue explicar de verdade.

O medo constante. A sensação de perder o controle da própria vida. A ansiedade. As crises de pânico. A vontade de fugir dali. Em muitos momentos eu senti que estava no limite do que conseguia suportar.

Depois da primeira cirurgia, fui para a UTI. Alguns dias depois, tive complicações e precisei passar por uma segunda cirurgia — uma reabordagem. Voltei novamente para a UTI, onde fiquei praticamente 30 dias. O tratamento se arrastou mais do que deveria. Foram muitos procedimentos, muitos exames, muitos desafios e muitos momentos dolorosos que eu nunca vou esquecer.

E com certeza o mais difícil de tudo foi ter que ficar longe dos meus filhos, do Davi e da Amanda. Essa parte mexeu comigo profundamente — uma mãe que precisa se afastar dos filhos sem saber exatamente quando vai voltar para casa. Eu sentia falta de tudo — das conversas, da rotina, do barulho da casa, dos abraços, das pequenas coisas que antes pareciam tão comuns.

E como o amor de uma mãe é algo inexplicável! As crianças me visitavam e sempre traziam desenhos. Eu colocava todos fixados na parede do quarto e ficava olhando para eles. Parece coisa simples, mas esses pedacinhos de papel colorido me ajudavam muito a continuar. Tenho tudo guardadinho aqui. 💛

🌿 Foi justamente nessa falta que eu senti ainda mais o valor de tudo aquilo que eu tinha. Às vezes a gente precisa se afastar para enxergar de verdade.


Os desafios que ninguém conta

Fiquei muitos dias sem conseguir me alimentar ou beber por via oral — recebia toda a nutrição de forma parenteral. Não foi fácil. Quando finalmente voltei a introduzir alimentos sólidos aos poucos, parecia que era uma bebê aprendendo a comer de novo. E posso dizer com toda a certeza: foi a refeição mais deliciosa que eu já experimentei na vida.

Outro grande desafio foi não conseguir simplesmente pausar o mundo lá fora. Trabalho, boletos, contas a pagar… fizemos do quarto de hospital um escritório. Mesmo doente, debilitada, não foi possível deixar de trabalhar nem por um dia. Quando acordei da primeira cirurgia, a primeira coisa que fiz foi perguntar pelos meus filhos e ver meu marido — e logo em seguida me preocupei com os boletos que venciam naquele dia. Não tem como fingir que isso não aconteceu.

No início, fui tomada por uma tristeza muito grande. Não sabia se sairia daquela situação, não sabia o que viria pela frente. Me senti muito impotente.

Mas quando entendi que aquilo iria passar, que eu iria me recuperar — algo mudou. Eu literalmente decidi fazer do limão uma limonada. Relaxei mais. Passei a curtir os momentos. O Telecine virou companheiro fiel — e olha, foram incontáveis as vezes que os mesmos filmes passavam de novo… e de novo… e de novo. 😄


A força que veio quando eu achei que não tinha mais forças

Houve momentos em que eu chorei muito. Momentos em que a ansiedade parecia maior do que eu. Mas hoje, olhando para trás, percebo que mesmo nos dias mais pesados Deus me sustentava.

Mesmo quando eu estava fraca. Mesmo quando eu estava cansada emocionalmente. Mesmo quando eu não entendia nada do que estava acontecendo — eu senti cuidado. Senti acolhimento. Senti amor em muitos detalhes pequenos.

Acho que a gente nunca mais enxerga a vida da mesma forma depois de passar tanto tempo dentro de um hospital.


O cuidado das pessoas mudou tudo

Uma das coisas mais marcantes dessa experiência foi perceber o quanto existem profissionais incríveis trabalhando silenciosamente todos os dias dentro dos hospitais.

Médicos, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, psicólogos, pessoas da limpeza, pessoas que entregavam as refeições — cada um deles teve importância na minha recuperação. Não apenas pelos procedimentos ou tratamentos, mas pela forma como me trataram.

Pelas conversas. Pelas palavras certas em dias difíceis. Pelas risadas em momentos improváveis. Pelo carinho, pela paciência, pelo acolhimento.

Muitos enfermeiros e enfermeiras se tornaram amigos de verdade lá dentro. Eram conversas sobre os mais diversos assuntos — inclusive sobre dorama, sim! 😄

No período da internação, eu maratonei pela segunda vez o dorama Beleza Verdadeira, dessa vez junto com o João. Todo dia à noite assistíamos um capítulo juntos. Esse dorama é muito significativo pra mim — e revê-lo naquele momento, deitada em uma cama de hospital, foi de alguma forma reconfortante e até divertido.

Conheci pessoas que estiveram comigo nos momentos mais frágeis que um ser humano pode estar — e que de alguma forma me trouxeram alegria. Ouvi histórias, vi que mesmo em uma UTI de hospital existe calor humano, existem pessoas rindo, existe vida, existe leveza.

Eu amava os momentos da fisioterapia, porque podia me movimentar. O local onde fazíamos os exercícios era praticamente o único que tinha uma janela para o mundo externo. Aquela janela vai ficar para sempre na minha memória.

Esse lugar era carinhosamente chamado de “academia dos Minions” 😄 — até hoje não sei o motivo, mas o nome me fazia rir toda vez.


A história do quarto — e do enfermeiro que deu um “jeitinho”

Quando ficamos internados por tanto tempo, nos tornamos extremamente sensíveis até aos menores detalhes. O quarto onde eu estava tinha uma porta com defeito — ela nunca fechava completamente. E ficava bem do lado de onde a equipe de enfermagem trabalhava, então havia sempre um burburinho, vozes, movimento. Aquela agitação toda fazia parte da minha rotina ali dentro.

Um dia, um enfermeiro veio me avisar que eu precisaria mudar de quarto. É procedimento normal na UTI: higienização completa do ambiente, até os colchões são limpos. Completamente compreensível. Só que para mim, naquele momento, aquilo foi difícil demais. Eu já tinha criado um vínculo com aquele espaço — com a porta quebrada, com o barulho, com tudo.

Fiquei muito chateada. Pedi para me tirarem e me colocarem de volta depois. Eles explicaram que não era possível — procedimento padrão.

O enfermeiro, vendo minha tristeza, ainda tentou argumentar: “Mas a porta aqui está com problema, e o outro quarto é mais calmo e silencioso…”

Respondi que gostava daquele quarto exatamente daquele jeito — com a porta torta e com o barulho. Era a minha agitação favorita. 😄

Conformada, mudei de quarto com todas as nossas coisas. Mas algum tempo depois, o mesmo enfermeiro entrou e disse: “Tenho uma surpresa. Já fizemos a higienização e você pode voltar para o outro quarto — dei um jeitinho, já que você gostava tanto de lá.”

🌿 Aquilo foi muito significativo pra mim. Não era sobre o quarto. Era sobre ser vista. Era sobre alguém se importar com uma coisa pequena que, naquele momento, era tudo.

“Aprendi que cuidado vai muito além de remédios. Às vezes, uma conversa leve em um dia pesado muda completamente o emocional de alguém.”


O João foi meu porto seguro em tudo isso

Eu não consigo falar dessa experiência sem falar do João, meu marido. Ele ficou ao meu lado o tempo inteiro — literalmente. Nos momentos mais difíceis, nas crises, nos medos, nos dias em que eu estava sem forças.

Brincávamos que ele já poderia trabalhar de enfermeiro depois de tudo o que aprendeu durante esse período. Mas, além disso, ele foi meu apoio emocional quando eu mais precisei.

E eu sei que também foi muito difícil para ele. Porque quem acompanha alguém internado também sofre. Também sente medo. Também se desespera em silêncio. Também cansa.

Isso ficou muito claro durante a minha segunda cirurgia — a reabordagem, que foi um pouco mais longa. Ele já estava apreensivo com toda aquela situação, e enquanto eu estava no centro cirúrgico, ele passou mal. Precisou ir ao PS. Fizeram todos os exames físicos e nada foi encontrado. Era uma crise de ansiedade intensa.

Foi ali que ele acabou sendo atendido pela Dra. Fernanda, psicóloga. Ele gostou tanto dela que pedimos à equipe se ela poderia também me acompanhar. E assim ela se tornou a psicóloga dos dois. 💛

Acho muito importante compartilhar isso aqui: o João ficou se mantendo forte o tempo todo por mim. Mas não tem problema nenhum precisar de ajuda também. Isso não é fraqueza — é humanidade.

🌿 Quem cuida também precisa ser cuidado. Se você está acompanhando alguém em um momento difícil, cuide de você também.

Tenho certeza de que tudo isso fortaleceu ainda mais o nosso casamento.


A importância da saúde emocional durante a recuperação

Uma coisa que eu aprendi nessa experiência é que recuperação física e emocional caminham juntas. O corpo sente — mas a mente também sente. A ansiedade pode consumir uma pessoa internada. O medo pode tomar conta.

Por isso, sou profundamente grata pela ajuda psicológica que recebi durante esse período. A Dra. Fernanda foi uma profissional humana e incrível. Quando ela entrava no quarto, meu coração já ficava mais aliviado só de vê-la chegar.

Nunca vou esquecer do exercício para acalmar a respiração — assoprar a velinha e cheirar a florzinha que ela me ensinou. Parece simples, mas naqueles momentos de ansiedade, fazia toda a diferença no mundo.

Ter alguém para conversar, acolher e ajudar a organizar emocionalmente tudo aquilo fez muita diferença na minha recuperação — e na do João também.

Ouvi muitas músicas que me ajudaram. Muitos louvores. Foram muitas orações, muita entrega e muita fé.

🌿 Nem sempre precisamos ser fortes o tempo inteiro. Pedir ajuda também faz parte da cura.


Nunca vou esquecer o acolhimento que recebi

Foram muitas pessoas especiais durante essa jornada. E eu nunca vou esquecer do carinho que recebi de pessoas muito especiais.

Das mensagens. Das orações. Dos amigos. Da família. Das pessoas que torceram por mim mesmo à distância. Sou muito grata por isso.


Depois da alta, a vida ganhou outro valor

O corpo passou por muito durante esses 41 dias. Foram injeções diárias, muitos procedimentos, e em determinado momento precisei receber até transfusão de sangue. Ali, de uma forma muito concreta, percebi o quanto a vida é valiosa. Eu nasci de novo depois de tudo isso.

No dia 14 de abril de 2024, depois de 41 dias internada, finalmente recebi alta. E lembro da sensação de respirar o ar de fora de um jeito completamente diferente — como se tudo tivesse mais valor.

A comida em casa. O silêncio da madrugada. O abraço dos filhos. O próprio sofá. A rotina. As pequenas coisas. Existe algo muito forte em quase perder a normalidade. Porque depois disso, ela deixa de ser “normal”. Ela vira presente.

Mas a recuperação não termina quando a gente recebe alta. O corpo ainda guarda os efeitos de tudo o que viveu — e isso eu senti de perto. Algum tempo depois de estar em casa, comecei a perceber uma queda de cabelo intensa. Fiquei praticamente quase careca. Meu cabelo sempre foi muito forte e volumoso, e perder tanto dele me impactou de uma forma profunda. Esse processo tem um nome: eflúvio telógeno. Mas esse tema merece um espaço próprio — vou contar tudo em um artigo dedicado só a isso, porque sei que muita gente passa pela mesma situação sem nem saber o que está acontecendo.

📌 Em breve: o artigo sobre eflúvio telógeno — o que é, por que acontece após situações de estresse físico intenso, e como eu enfrentei essa fase.


Algumas dores mudam a gente para sempre

Eu não saí dessa experiência igual. Passar por algo assim causa uma transformação dentro da gente. Mas acho que algumas dores têm exatamente esse papel: elas nos transformam. Nos desaceleram. Nos fazem enxergar a vida de outro jeito.

Hoje eu valorizo mais o tempo, as pessoas, a presença, a saúde, os momentos simples. Aprendi que temos muitos problemas no dia a dia — mas nada se compara a um problema assim, porque nos sentimos frágeis e ao mesmo tempo percebemos o quanto somos importantes para quem amamos.

E mesmo diante das situações difíceis que enfrento hoje, lembro desse período e me sinto forte para continuar. Isso também me fez enxergar a leveza da vida nos pequenos detalhes.

E principalmente: a fé. Porque houve momentos em que eu realmente não tinha forças — e mesmo assim continuei. Porque no fundo eu sabia que não estava sozinha. E essa certeza mudou tudo.


Esta internação deixou cicatrizes.
Mas também deixou gratidão e novas perspectivas.
A minha fé em Deus foi o que me capacitou a ser forte
mesmo quando eu achei que não estava sendo.
E uma certeza muito forte dentro de mim:
sobreviver muda a forma como a gente abraça a vida.

Arte acolhedora de encerramento do artigo sobre internação e recuperação, com mensagem de gratidão, flores, chá e tons suaves transmitindo paz e esperança.

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Respira. Você não precisa dar conta de tudo hoje.

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