A maternidade não vem com manual: o que o mar me ensinou sobre maternar
Esses dias me peguei lembrando de uma cena de muitos anos atrás.
A Amanda devia ter uns 3 anos e o Davi, uns 5. Fizemos uma viagem em família para São Sebastião e ficamos em uma casa com acesso à Praia de Barequeçaba.
Barequeçaba é uma praia linda, de mar mais tranquilo, daquelas que combinam muito com viagem em família e crianças pequenas.

E aquela viagem tinha algo especial para nós: seria a primeira vez da Amanda na praia.
A primeira vez sentindo a areia nos pezinhos, vendo o mar de perto, ouvindo o barulho das ondas e descobrindo aquele mundo completamente novo.
Na minha cabeça, eu já tinha imaginado como seria. Ela pisaria na areia, correria para a água e ficaria encantada.
Uma daquelas cenas fofas que a gente cria antes mesmo de acontecer.
Só que não foi bem assim.
Nem sempre acontece como a gente imagina
O Davi já tinha conhecido o mar quando era bem pequenininho, em uma viagem para Ilhabela. Naquela época, a Amanda ainda estava no forninho, na barriga da mamãe.
E ele simplesmente amou.
Não estranhou a areia, não teve medo da água e ficou encantado com aquela descoberta. Então a gente imaginava que, quando chegasse a vez da Amanda, seria mais ou menos do mesmo jeito.
Mas foi completamente diferente.
Lembro do João com ela no colo, em cima de uma pedra grande, diante daquela praia toda. Amanda estava tensa com o mar, com as ondas chegando, não queria entrar na água e começou a chorar bastante.
Confesso que aquilo nos pegou de surpresa.
Eu realmente tinha imaginado outra cena. Achei que ela fosse amar, brincar, se encantar.
Mas, para ela, naquele momento, tudo aquilo era estranho. Era novo. E dava medo.
Tentamos acalmá-la com paciência, mas sem forçar nada. Não queríamos transformar uma experiência que deveria ser gostosa em algo ainda mais assustador só porque nós achávamos que ela deveria gostar.
E foi então que aconteceu uma das cenas mais bonitas que guardo da minha experiência como mãe de dois.
Foi o Davi quem mostrou que estava tudo bem
O Davi se aproximou dela. Ainda tão pequeno também.
Do jeitinho dele, começou a mostrar para a irmã que estava tudo bem. Que ela podia pisar na areia, chegar pertinho da água e sentir o mar encostando nos pés.
Até que ele pegou a mãozinha dela.
Foi simples.
Mas foi o suficiente.
Com a mão do irmão segurando a sua, Amanda começou a ficar mais tranquila. Deu alguns passos, chegou mais perto da água e os dois começaram a caminhar juntos pela beira da praia.
Eu lembro de olhar para aquela cena e ficar muito emocionada.
Meu filho, ainda uma criança, conseguiu transmitir para a irmã uma segurança que nós, adultos, naquele momento, não tínhamos conseguido.
Ele não precisou explicar muita coisa ou tentar convencê-la de que não havia motivo para ter medo.
Só mostrou que estava ali.
Segurou a mão dela e foi junto.
Às vezes, a segurança de que uma criança precisa não vem de uma explicação. Vem apenas de saber que alguém está ali e vai caminhar junto.
Foi uma das cenas mais lindas que já vivi como mãe.
E, tantos anos depois, essa lembrança voltou para mim com um significado ainda maior.

O mesmo mar, dois filhos, duas experiências
Davi e Amanda vieram da mesma barriga, cresceram na mesma casa, com os mesmos pais, cercados pelo mesmo amor e pelos mesmos valores.
E, diante do mesmo mar, tiveram experiências completamente diferentes.
Um se encantou logo de cara.
A outra precisou de tempo, segurança e de uma mão segurando a sua.
Quando pensei nisso, percebi o quanto aquela cena fala sobre maternidade e criação dos filhos.
A maternidade não vem com manual.
A gente lê, pesquisa, conversa com outras mães, escuta especialistas e aprende muito com quem já viveu determinadas fases. Tudo isso ajuda, claro.
Mas não existe uma fórmula capaz de prever como cada filho vai reagir ou dizer exatamente o que devemos fazer em todas as situações.
Porque filhos não são iguais. Nem mesmo quando são irmãos.
Cada um tem seu jeito, sua personalidade, seus medos, suas facilidades, suas inseguranças e uma maneira própria de enxergar o mundo.
Aquilo que funcionou lindamente com um pode simplesmente não funcionar com o outro.
Cada filho é único, e aprender a enxergar essas diferenças também faz parte do maternar.
A maternidade não é uma matemática exata.
E acho que uma parte importante de ser mãe é justamente aprender a enxergar quem cada filho é, em vez de esperar que todos respondam da mesma maneira.
Quando os filhos crescem, as dúvidas mudam também
Quando são pequenos, muitas das nossas preocupações parecem mais concretas.
Comeu? Dormiu? Está com frio? Levou casaco?
Depois eles crescem.
E, sinceramente, as perguntas ficam bem mais difíceis.
Será que estou sendo dura demais? Será que estou cedendo onde deveria ser mais firme? Será que preciso conversar ou simplesmente dar espaço?
E junto dessas dúvidas aparece uma velha conhecida de muitas mães: a culpa.
Agora que meus filhos estão chegando perto da adolescência, tenho sentido ainda mais essa mudança.
Eles têm opiniões mais fortes, questionam mais, vivem novas inseguranças e começam a buscar o próprio espaço. Há momentos em que querem a nossa presença e outros em que parecem querer distância.
E nós, mães, também precisamos aprender uma nova forma de estar perto.
Essa fase da maternidade com filhos crescendo mexe muito com a gente.
Porque não é mais só cuidar.
Também é aprender quando falar, quando ouvir, quando orientar, quando ser firme e quando dar espaço.
E nem sempre acertamos de primeira.
Eu mesma erro. Falo mais do que deveria em alguns momentos, percebo que poderia ter ouvido mais em outros. Volto atrás, peço desculpas, revejo atitudes e continuo aprendendo.
Ser mãe não significa ter sempre a resposta certa.
Durante muito tempo, podemos cair nessa cobrança de achar que deveríamos saber exatamente o que fazer.
A hora de falar.
A hora de calar.
Quando insistir.
Quando recuar.
Como agir com cada filho.
Mas essa precisão não existe.
Cada fase traz uma coisa nova. Cada filho reage de um jeito. E nós também mudamos durante o caminho.
Tenho tentado olhar para a minha própria maternidade com mais gentileza por causa disso.
Não para achar que tudo o que faço está certo ou fugir dos meus erros.
Mas para não exigir de mim uma perfeição que nenhuma mãe consegue alcançar.
Maternidade real também é aprender enquanto fazemos
Existe muita coisa bonita na maternidade.
Mas também existem inseguranças, dúvidas, erros e dias em que a gente simplesmente não sabe se está fazendo certo.
E acho importante falar sobre isso.
A maternidade real não é feita apenas de momentos perfeitos ou de respostas certeiras.
Ela também é feita de tentativas.
De voltar atrás.
De reconhecer quando erramos.
De conhecer melhor nossos filhos conforme eles crescem.
E de continuar aprendendo.
Hoje consigo olhar para aquela cena da praia e entender que, de certa maneira, nós também fazemos isso o tempo todo como mães.
Vamos descobrindo o caminho enquanto caminhamos.
Às vezes, tudo o que podemos fazer é oferecer a mão
Quando penso naquela Amanda pequenininha diante do mar, uma coisa fica muito clara para mim.
Ela não precisava que alguém dissesse que não havia motivo para ter medo.
Para ela, havia.
Ela precisava se sentir segura.
E naquele dia a segurança veio através da mão do irmão.
Hoje eu vejo o maternar um pouco assim.
Há momentos em que nossos filhos vão correr em direção ao mundo sem olhar para trás. Em outros, vão parar diante de alguma coisa nova e sentir medo de dar o próximo passo.
Nós nem sempre teremos a frase perfeita ou uma solução pronta.
Mas podemos estar por perto.
Podemos ouvir, orientar, respeitar o tempo deles, reconhecer quando erramos e estender a mão quando precisarem.
Hoje meus filhos vivem uma fase completamente diferente daquela praia de Barequeçaba.
Os desafios são outros, as conversas são outras e eu também sou uma mãe diferente daquela que tinha duas crianças pequenas ao lado.
Tenho pensado muito sobre isso nos últimos tempos. Sobre como a maternidade muda conforme os filhos crescem e sobre como nós também precisamos aprender a mudar com ela.
Quero trazer mais dessas conversas para o Cantinho.
Não como alguém que descobriu uma fórmula para criar filhos. Bem longe disso.
Quero falar como mãe mesmo.
Das coisas bonitas, dos dias difíceis, das dúvidas, dos erros, dos aprendizados e de tudo aquilo que vai acontecendo no meio do caminho.
Porque, quando falamos de maternidade de verdade, sem essa obrigação de parecer que damos conta de tudo, acabamos acolhendo umas às outras também.
E se eu pudesse guardar uma única imagem daquela viagem, seria aquela:
Davi segurando a mãozinha da Amanda enquanto os dois caminhavam pela água.
Ela ainda estava aprendendo a confiar naquele mar enorme diante dela.
Mas já não precisava fazer isso sozinha.
Hoje, olhando para os meus filhos crescendo, entendo ainda mais o valor daquela cena.
Maternar não é saber exatamente como será o caminho.
É conhecer nossos filhos durante o percurso, aprender com eles e continuar ali, mesmo quando nós também estamos tentando descobrir qual é o próximo passo.
A maternidade não vem com manual. Nossos filhos não precisam de uma mãe que saiba tudo. Precisam de amor, presença e de uma mão que continue ali quando o mar parecer grande demais.





