Quando minha filha, que sempre amou ir pra escola, implorou pra faltar: o que aprendi como mãe
A Amanda está naquela fase dos 11 indo para os 12 anos.
E ela sempre gostou muito de ir para a escola. Muito mesmo.
Quando chegavam as férias, reclamava que ia sentir saudade da escola, dos amigos, dos professores… Ela nunca foi de procurar desculpas para não ir, nem de ficar tentando convencer a gente a deixar ela faltar.
O que é até meio atípico, né? Porque, mesmo gostando da escola, qual criança de vez em quando não acha uma delícia faltar e passar o dia em casa vendo TV? rs
Mas com a Amanda isso praticamente nunca aconteceu.
Ela sempre fez questão de ir. E ia feliz.
Por isso, quando ela veio nos pedir, quase implorando, para não ir à escola no dia seguinte, aquilo chamou muito a minha atenção.
Não era um comportamento comum dela.
Mas aquele pedido também não surgiu do nada.
Já havia algum tempo que ela vinha passando por algumas situações com amizades na escola, e a gente sabia que aquilo estava mexendo com ela.
Quando as amizades começam a pesar
Quando os filhos começam a sair da infância e entrar na pré-adolescência, parece que muita coisa muda ao mesmo tempo.
Mudam os gostos, as opiniões, o jeito de pensar e até a forma de enxergar algumas coisas.
A sensação é de acordar a cada dia com uma pessoa um pouquinho diferente dentro de casa.
A Amanda sempre foi uma menina doce, tranquila e sociável. Gosta de conversar, de estar com as pessoas e sempre teve facilidade para fazer amizade.
Só que ela acabou se desentendendo com uma amiga muito querida.
E não se trata de uma amizade qualquer.
É uma menina de quem a Amanda gosta muito e por quem nós também temos um carinho enorme. Talvez justamente por isso eu tenha ficado tão preocupada em fazer as duas se resolverem.
A situação já vinha acontecendo a algum tempo. A Amanda mostrava que estava chateada, a amizade entre elas estava diferente e nós, querendo ajudar, começamos a tentar resolver aquilo.
Desde pequena eu procuro ensinar à Amanda uma coisa que considero muito importante: ninguém é perfeito.
A gente erra.
Às vezes fala algo que não deveria, toma uma atitude que machuca alguém ou simplesmente percebe depois que poderia ter agido diferente.
Mas também precisamos ter humildade para reconhecer nossos erros, pedir desculpas e tentar consertar, principalmente quando se trata de alguém de quem gostamos e por quem temos consideração.
E foi isso que eu incentivei a Amanda a fazer.
Não porque eu achasse que toda a culpa daquela situação era dela. Mas porque queria que ela também olhasse para as próprias atitudes e fizesse a parte que cabia a ela.
E ela tentou. Tentou conversar, se aproximar e deixar espaço para que as coisas se acertassem.
Só que comecei a perceber que, naquele momento, ela não estava encontrando a mesma abertura do outro lado.
E isso também estava machucando.
Em determinado momento ela me perguntou:
“Mãe, se eu sei que ela não vai responder meu oi, por que eu tenho que dar oi?”
E aquela pergunta ficou na minha cabeça.
É claro que quero ensinar minha filha a ser educada, gentil e a fazer a parte dela.
Mas também comecei a entender que reconhecer um erro, pedir desculpas e tentar se acertar não significa precisar continuar insistindo até que o outro queira também.
A gente pode fazer a nossa parte. Mas uma relação não se reconstrói sozinha.
Eu queria tanto que aquela amizade se resolvesse que comecei a agir como se dependesse principalmente da Amanda fazer isso acontecer.
E então percebi que não dependia só dela.
Ao mesmo tempo, havia outra situação de amizade que também vinha nos preocupando e sobre a qual conversávamos bastante com ela.
Então, sem perceber, começamos a falar demais sobre as amizades da Amanda.
Uma precisava ser resolvida.
Outra precisava ser repensada.
E nós estávamos o tempo todo tentando orientar.
Hoje imagino o quanto tudo isso deve ter mexido com a cabecinha dela.
Nossa intenção era proteger e cuidar.
Mas, no meio de tantas conversas, esquecemos de deixar espaço para que ela simplesmente falasse sobre o que estava sentindo.
Às vezes, na nossa pressa de resolver o problema dos nossos filhos, esquecemos de perguntar como eles estão se sentindo com aquela situação.
“Mãe, posso faltar amanhã?”
Foi então que chegou aquela quinta-feira.
À noite, a Amanda veio conversar com a gente toda receosa.
Pediu para não ir à escola no dia seguinte.
Disse que era sexta-feira, que não teria nada tão importante, que ela praticamente nunca pedia para faltar e que aquele único dia não iria prejudicá-la.
E pediu várias vezes para deixarmos ela ficar em casa.
Nossa primeira reação foi achar aquele pedido um absurdo.
Dissemos que não.
E, naquele primeiro momento, fomos muito mais para o “não, você vai e pronto” do que para tentar entender o que estava acontecendo.
Foi quando ela desabou.
Já estava perto da hora de dormir e ela começou a chorar muito. Ficou nervosa e continuava implorando para não ir.
Eu sabia que havia um motivo a mais por trás daquele medo.
A amiga com quem ela estava andando mais nos últimos dias também faltaria naquela sexta-feira, e a Amanda estava com muito receio de se sentir sozinha e deslocada na escola.
Somado a tudo o que ela já vinha vivendo, aquela sexta-feira parecia enorme para ela.
E foi ali que caiu uma ficha em mim:
toda aquela insegurança não tinha aparecido naquela noite. Ela já vinha sendo construída havia algum tempo.
E nós, mesmo tentando ajudar, provavelmente também tínhamos colocado mais peso em cima dela.
Comecei a entender que deveria ter ouvido mais e pressionado menos.
Ainda assim, eu não achava que simplesmente deixar ela faltar por causa daquele medo seria a melhor escolha.
Ela precisava aprender que nem sempre conseguimos fugir daquilo que nos deixa inseguros. Existem responsabilidades e também existem situações que só ficam menos assustadoras depois que encontramos coragem para passar por elas.
Mas naquele momento eu percebi outra coisa:
Existe uma diferença enorme entre ensinar um filho a enfrentar alguma coisa e fazê-lo enfrentar aquilo se sentindo sozinho.
Antes de orientar, eu precisava acolher
A Amanda já estava na cama quando a chamei para vir comigo para o sofá.
Pedi que pegasse a alpaca de pelúcia que ela gosta, peguei uma manta gostosa para nós duas, diminuí as luzes da sala e coloquei algumas músicas de louvor que nós gostamos de ouvir.
Ela ainda estava muito tensa e chorosa.
Pedi que deitasse no meu colo e falei que faria carinho nela até ela se acalmar.
E ali eu parei um pouco de tentar resolver tudo.
Só fiquei com ela.
Contei que, quando tinha a idade dela, também passei por situações em que me senti insegura, deslocada e com medo de enfrentar algumas coisas.
Tentei fazer ela se lembrar de tudo o que também tinha de bom na escola: os outros amigos, as pessoas que gostavam dela, os professores e um lugar que, durante tantos anos, sempre fez tão bem para ela.
E falei algo que espero que ela leve para a vida:
ela não precisa de uma única pessoa ao lado dela para se sentir bem ou saber o valor que tem.
Também falei sobre aquilo em que acreditamos aqui em casa.
Disse para ela usar uma das forças que temos quando o coração aperta: a oração.
Não foi mágico.
Ela não parou de chorar na mesma hora.
Demorou para se acalmar e acabou dormindo de tão cansada.
Mas eu parei de tentar dizer o tempo todo o que ela precisava fazer e comecei a ouvir melhor o que ela estava sentindo.
Na manhã seguinte, meu coração também apertou
Quando amanheceu, ela ainda estava muito sensível.
Chorou novamente e, no fundo, acho que ainda tinha esperança de que mudássemos de ideia.
Conversamos e mantivemos a decisão de que ela iria à escola.
Mas dessa vez não era simplesmente um “você vai porque tem que ir”.
Eu queria que ela soubesse que entendia o medo dela e, ao mesmo tempo, que acreditava que ela conseguiria passar por aquele dia.
Ela foi.
E eu fiquei em casa com o coração apertado.
Uma parte de mim queria deixar ela faltar, ficar comigo e evitar qualquer sofrimento.
Mas outra parte sabia que ela precisava descobrir que conseguia enfrentar aquele medo.
E ela voltou sorrindo
Quando a Amanda chegou da escola, uma das primeiras coisas que procurei foi o rosto dela.
E vi um sorriso.
Aquilo trouxe um alívio enorme para o meu coração de mãe.
Perguntei como tinha sido e ela contou que algumas coisas tinham sido legais.
Na noite anterior, aquela sexta-feira parecia um monstro enorme.
Depois que ela viveu aquele dia, percebeu que tinha conseguido passar por ele e que o medo tinha feito tudo parecer ainda maior.
E não são apenas as crianças que fazem isso.
Nós, adultos, também fazemos.
Quantas vezes sofremos antes da hora, imaginamos situações muito piores do que elas realmente são e depois descobrimos que conseguimos lidar?
Orientar também é aprender a confiar
Depois dessa situação, continuei conversando com a Amanda sobre amizades.
Quero que ela seja uma boa amiga.
Quero que saiba reconhecer quando errar, pedir desculpas e tentar consertar aquilo que vale a pena.
Porque ninguém acerta o tempo todo.
Mas também quero que ela entenda que pedir desculpas não significa carregar sozinha a responsabilidade de consertar uma relação.
Ela pode reconhecer onde errou.
Pode fazer a parte dela.
Pode ser educada, cumprimentar e deixar a porta aberta para uma conversa.
Mas também precisa aprender quando é hora de parar de insistir e dar espaço.
Não precisa implorar por amizade, atenção ou carinho.
Não quero que minha filha cresça acreditando que precisa aceitar qualquer coisa para não perder alguém.
E eu também estou aprendendo que nem toda amizade que me preocupa se resolve simplesmente proibindo ou mandando que ela se afaste.
Nós damos uma base para nossos filhos desde pequenos.
Ensinamos valores, mostramos o certo e o errado, conversamos, corrigimos, damos exemplos.
E chega uma fase em que precisamos começar a confiar um pouco naquilo que ensinamos.
A Amanda é uma menina esperta. Ela conhece os valores da nossa casa e sabe muita coisa que ensinamos para ela.
Isso não significa que vou deixar de orientar.
E muito menos que ela vai acertar sempre.
Significa apenas que preciso tomar cuidado para que minha vontade de proteger não seja tão grande a ponto de fazer com que ela tenha medo de me contar as coisas.
Eu quero que minha filha saiba que pode conversar comigo até quando fizer uma escolha que sabe que não foi boa.
Porque talvez seja justamente nesses momentos que ela mais precise saber que pode voltar para mim.
No fim, meu manual de mãe ganhou mais uma página
Aquela noite não foi apenas sobre a Amanda não querer ir para a escola.
Foi também sobre mim.
Sobre aprender que posso orientar sem pressionar.
Que posso colocar limites e, ao mesmo tempo, oferecer colo.
E que acolher o sentimento de um filho não significa concordar com tudo ou tirar todas as dificuldades do caminho dele.
Às vezes, acolher é simplesmente dizer:
“Eu sei que está difícil. Mas você não precisa passar por isso sozinha.”
Eu estava tão focada em resolver as amizades dela que me esqueci, por alguns momentos, de lembrá-la de algo muito mais importante:
ela não precisava sentir toda aquela insegurança sobre quem ela é.
Algumas amizades permanecem. Outras mudam. Algumas passam por fases difíceis e se acertam depois. Outras acabam nos ensinando alguma coisa pelo caminho.
E nós, mães, também seguimos aprendendo.
Quando falar.
Quando orientar.
Quando colocar limite.
Quando confiar.
E quando simplesmente puxar uma manta, diminuir a luz da sala, oferecer o colo e ficar ali.
Porque nossos filhos vão precisar enfrentar muitas coisas sozinhos ao longo da vida.
Mas eles precisam saber que nunca precisam se sentir sozinhos enquanto enfrentam.





