Quando a Infância Não Tinha Pressa: Cartuchos, Gibis e Internet Discada
Tem lembranças que parecem ter cheiro.
Cheiro de lanche da tarde, de fita VHS, de revista nova da Turma da Mônica e de televisão ligada na sala. Às vezes bate uma saudade silenciosa de quando as coisas pareciam mais simples — ou talvez mais sentidas.
A geração de hoje é acelerada, dinâmica, conectada. E não é uma crítica — afinal, nós mesmos usufruímos muito dessa modernidade. Mas existe algo que fica guardado no coração de quem cresceu numa época diferente: a sensação de que as coisas tinham outro sabor.
Uma infância mais vivida. Mais sentida. Que não tinha tudo na palma da mão.
O cartucho que a gente soprava
Quem lembra dos videogames de cartucho?
Dos tempos do Atari ao Mega Drive, a diversão vinha num pedacinho de plástico que a gente encaixava e torcia pra funcionar. Quando não funcionava de primeira, lá vinha o ritual sagrado: soprar o cartucho. Várias vezes, se necessário. Um dos meus preferidos era o Sonic da SEGA.
Os gráficos nem se comparam aos de hoje, claro. Mas a diversão daquela época tinha um gostinho diferente. Uma conquista que se sentia diferente.
A gente passava horas tentando zerar o mesmo jogo, decorava fases inteiras, chamava os amigos pra jogar juntos no sofá e comemorava pequenas vitórias como se fossem enormes.
E tinha um gostinho especial em assistir o outro jogar. Hoje as crianças não têm a mesma paciência, mas na minha época fazia parte da brincadeira também — assistir era quase tão divertido quanto jogar.
A TV Cultura e o horário certo
Cresci acompanhando os programas da TV Cultura, e cada um tinha hora certa de começar.
Não existia apertar um botão e iniciar, rebobinar, avançar ou pular comercial. Quando chegava o intervalo era aquela corrida: tomar água, ir ao banheiro e voltar voando pra não perder nada.
A gente aprendia a esperar.
E era justamente essa espera que tornava tudo mais especial.
Tenho um carinho gigante por essa época. Inclusive, reuni algumas dessas lembranças em um texto especial sobre os programas da TV Cultura que mais marcaram a minha infância, como Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bum, Doug Funny e O Mundo de Beakman.
Algumas coisas simplesmente abraçam a memória da gente.
O barulhinho da internet discada
Pra se conectar à internet, era necessário um verdadeiro teste de paciência.
A internet discada às vezes demorava pra entrar, e aquele barulhinho característico da conexão ficou marcado na cabeça de toda uma geração. Era quase um ritual.
E tinha horário pra usar.
Muita gente precisava esperar dar meia-noite pra internet ficar mais barata. Enquanto conectava, ninguém podia mexer no telefone da casa.
Hoje tudo acontece instantaneamente. Em segundos abrimos vídeos, filmes, músicas e conversas. Mas naquela época existia expectativa. Existia antecipação.
Esses dias vi no shopping um West Highland White Terrier — aquele cachorrinho branco fofinho que era o mascote do iG — e foi impossível não sorrir. Alguns símbolos ficam tatuados na memória.
O cinema era um evento
Não existia streaming.
Ir ao cinema era realmente um evento — e, pra mim, até hoje ainda é. Amo cinema, e quero escrever um artigo só sobre isso em breve. Mas antes parecia que a gente valorizava ainda mais esses momentos justamente porque eles não estavam disponíveis a qualquer hora.
Tinha expectativa.
Escolher o filme, combinar o horário, comprar ingresso, dividir pipoca, guardar o canhoto como lembrança. Tudo fazia parte da experiência.
Talvez hoje a gente tenha mais acesso. Mas antes parecia que a gente tinha mais presença.
Os gibis da Mônica
Os gibis da Mônica eram minha grande companhia.
Eu tinha assinatura e ficava super ansiosa esperando cada edição chegar. E quando vinha o Almanacão — quem lembra? — era uma felicidade enorme.
Eu passava horas lendo aquelas histórias simples, coloridas e cheias de vida. Era um tipo de diversão leve, tranquila e silenciosa.
Não existia excesso de estímulo.
Só a imaginação funcionando.
Até hoje, quando vejo uma capa antiga da Turma da Mônica, sinto uma sensação gostosa de infância. Como se por alguns segundos a mente voltasse pra um lugar seguro.
A loja de CD e os Backstreet Boys
As lojas de CD no shopping também eram um evento.
Ir até lá fazia parte do passeio. Não existia Spotify. A gente comprava o CD físico mesmo, olhava o encarte, decorava a ordem das músicas e ouvia o álbum inteiro do começo ao fim.
Sou da fase da febre dos Backstreet Boys.
Quando lançava um CD novo, eu ouvia sem parar. Repetia as músicas dezenas de vezes. Existia ritual. Existia emoção. Existia espera.
Hoje escutamos milhares de músicas em poucos minutos. Antes, a gente criava conexão com um álbum inteiro.
E isso tinha outro sabor.
A locadora e a dúvida do filme
A inspiração pra esse texto veio de uma conversa com uma amiga, enquanto falávamos sobre como algumas coisas eram antigamente. E então veio a memória da locadora.
Aquela emoção de escolher um filme.
Andar entre as prateleiras, ler a sinopse atrás da capa, discutir qual levar. Quando o filme era muito concorrido e nunca estava disponível. Quando precisava devolver no dia seguinte pra não pagar multa.
Parecia simples. Mas era especial.
Talvez porque existia presença até nos momentos comuns.
Hoje temos milhares de opções disponíveis o tempo todo. Mas às vezes parece que quanto mais opções existem, menos os momentos permanecem na memória.
O tédio que fazia bem
Hoje as crianças quase não sabem mais o que é sentir tédio.
E o tédio, na verdade, tem muitos benefícios pra infância. Ele estimula a criatividade, a imaginação e a capacidade de criar brincadeiras do zero.
Na nossa época, nem tudo era imediato.
Às vezes faltava internet. Às vezes acabava a pilha. Às vezes não tinha nada pra fazer.
E justamente nesses momentos a gente inventava mundos.
Brincava na rua. Criava histórias. Desenhava. Imaginava. Sentia o tempo passar devagar.
Hoje tudo é muito rápido. Muito barulhento. Muito acelerado. As crianças recebem estímulo o tempo inteiro.
E antigamente a gente sentia mais e valorizava mais as pequenas coisas.
O gosto da espera
Não é saudosismo pelo saudosismo. E também não é uma crítica à modernidade.
É só gratidão.
Gratidão por ter vivido uma época em que as coisas tinham mais sabor de infância. Em que a espera ensinava. Em que o simples emocionava.
Talvez a felicidade morasse mais nos caminhos do que na velocidade.
E que bom que a gente viveu isso. 💛
E você?
Qual dessas lembranças mais marcou a sua infância?
A locadora?
Os gibis?
A internet discada?
Ou existe alguma memória que ficou de fora desta lista?Vou amar ler nos comentários.





