Quando nossos filhos querem algo só porque “todo mundo tem”
Uma reflexão sobre consumo, identidade e o que está por trás da vontade de pertencer
Esses dias vivi uma situação aqui em casa que ficou na minha cabeça por dias.
Meus filhos, Davi e Amanda, chegaram animados falando do álbum da Copa. Figurinhas, pacotinhos, troca na escola… aquela febre que aparece de tempos em tempos e parece tomar conta de todo mundo intensamente.
O detalhe? Nenhum dos dois gosta realmente de futebol. Não assistem jogos. Não acompanham campeonatos. Não sabem nomes de quase nenhum jogador. Nunca demonstraram interesse algum pelo assunto.
Mas bastou a escola inteira começar a falar sobre isso para surgir aquela vontade enorme de ter também.
Até que ponto um desejo nasce realmente dentro da gente? E até que ponto ele nasce porque sentimos que precisamos acompanhar todo mundo?
A linha delicada entre proibir e ensinar
Confesso que essa é uma das partes mais difíceis da maternidade pra mim.
Eu não quero criar filhos que se sintam privados de tudo. Também não quero transformar cada desejo deles numa aula cansativa sobre dinheiro ou consumismo.
Mas sinto que o meu papel como mãe também é ensinar algo que o mundo quase não ensina mais: pensar antes de querer.
A pressão para consumir começa cedo. É brinquedo, é tênis, é roupa, é celular, é trend. E se a criança não participa, muitas vezes sente que está ficando de fora. Eu entendo isso. Na infância e na pré-adolescência, pertencer importa muito.
Só que eu também não quero que meus filhos cresçam acreditando que precisam seguir toda multidão para serem aceitos.
O que está por trás do “mas todo mundo tem”
Essa frase é clássica. E ela mexe com a gente de um jeito que é difícil explicar — porque nenhuma mãe gosta da sensação de que o filho pode estar excluído de alguma coisa.
Mas tem uma reflexão importante aqui: nem tudo que todo mundo faz precisa virar prioridade dentro da nossa casa. Principalmente quando percebemos que aquilo nem combina com quem nossos filhos realmente são.
Aqui em casa, nossa conversa foi muito mais sobre isso do que sobre o álbum em si. Tentamos mostrar pra eles:
“Vocês não precisam gostar de algo só porque virou moda. E isso não os faz nem menos legais, nem menos parte do grupo.”
Mas cuidado: o objeto muitas vezes não é o problema
Também percebi outra coisa importante nessa reflexão. Talvez o álbum nem seja sobre futebol.
Talvez seja sobre participar das conversas. Trocar figurinhas. Rir junto. Sentir que faz parte.
E isso também tem valor.
Por isso, acho perigoso quando transformamos tudo em “isso é bobagem”. Porque para a criança, muitas vezes não é. O sentimento social é real, e merece ser levado a sério antes de ser redirecionado.
O medo que carrego como mãe
Essa situação me fez pensar em quantas vezes nós, adultos, também fazemos isso sem perceber. Compramos coisas sem necessidade. Seguimos tendências que nem fazem sentido pra gente. Entramos em padrões só para não parecermos diferentes.
Talvez nossos filhos estejam aprendendo muito mais observando nossas escolhas do que ouvindo nossos discursos.
E é por isso que eu acredito que educação — financeira ou não — vai muito além de regras. Ela também envolve identidade, autoestima e a coragem de ser quem você é mesmo quando todo mundo está indo pra outro lado.
O que eu quero que eles levem pra vida
No fundo, não quero criar filhos que nunca sigam tendências. Isso seria impossível — e um pouco chato, que a gente seja honesta.
O que eu quero é criar filhos que saibam pensar antes de seguir. Que consigam se perguntar:
- Eu realmente gosto disso?
- Isso faz sentido pra mim?
- Ou eu só estou indo junto porque todo mundo foi?
O que aconteceu aqui em casa
Quando soubemos que o Davi e a Amanda queriam comprar o álbum com o dinheiro que ganharam de presente dos avós paternos, não dissemos não.
Pedimos que eles pensassem antes de decidir.
Explicamos que o valor daria para comprar o álbum e poucas figurinhas — e que essa modinha provavelmente passaria rápido, como todas as outras. E que, como eles não curtem futebol de verdade, em algumas semanas o álbum provavelmente ficaria esquecido numa gaveta.
Então fizemos uma pergunta simples: existe algo que faça mais sentido pra vocês? Algo que os deixe mais felizes de verdade, não só por alguns dias?
Não queríamos proibir. Queríamos ensinar a pensar com a própria cabeça.
Porque o mundo já tem gente demais seguindo a massa de manobra. E a gente queria que os nossos filhos soubessem que não precisam fazer isso.
A resposta deles? Ainda está sendo pensada. E tá tudo bem assim.
Porque o processo de reflexão já é o suficiente.
Isso tudo continua em construção aqui em casa — e provavelmente na sua também. 💛
Você já viveu uma situação parecida? Como foi a conversa na sua casa? Conta nos comentários — vou amar ler as histórias de vocês, e é sempre bom saber que não estamos sozinhas nessas.
Atualização: e no fim… o álbum veio parar aqui em casa 🏆
Depois de alguns dias pensando, o Davi e a Amanda tomaram uma decisão.
E ela me surpreendeu de um jeito muito bom.
Eles admitiram, com uma honestidade que me encheu o coração, que não era pelo futebol. Era pela graça mesmo. Por poder trocar figurinha no recreio. Por participar daquele momento junto com os amigos. Por fazer parte da modinha do momento.
E sabe? Essa é a maior lição. Porque é muito diferente querer algo por impulso e querer algo sabendo o motivo real.
Foi aí que eu e o pai tivemos uma ideia: e se eles dividissem um álbum juntos?
Os dois aceitaram a ideia. Poderiam compartilhar as figurinhas, cada um levava um pouco para fazer a troca com os amigos.
E para celebrar essa maturidade toda — a reflexão, a conversa honesta e a disposição de compartilhar — decidimos presenteá-los com a versão capa dura dourada. Uma forma carinhosa de dizer: a gente viu o esforço de vocês. E isso merece ser reconhecido.
Combinamos que as figurinhas ficam por conta deles, com o dinheiro que têm guardado. E que a gente pode ajudar de vez em quando — com muita moderação, claro. 😄
O álbum está em casa. Os dois estão felizes. E eu fiquei com aquela sensação gostosa de que a conversa valeu — não porque eles fizeram exatamente o que a gente queria, mas porque eles pensaram antes de decidir. E chegaram em uma decisão que fez sentido pra eles e pra gente.
Às vezes a maternidade é exatamente isso: não vencer o argumento, mas abrir espaço para que eles encontrem o próprio caminho. 💛




